Meus caros, o episódio envolvendo a ocupação do prédio da reitoria da USP acabou por revelar uma impaciência da chamada opinião pública com as reivindicações de coletivos, sindicatos e movimentos sociais. Há tempos é perceptível um certo maniqueísmo midiático na cobertura de protestos e ações de grupos que lutam por seus direitos e que sejam identificados politicamente com a esquerda. Desde seu surgimento, o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra - MST é alcunhado pejorativamente de movimento marginal, Quem já assistiu a leitura de algum editorial da Band pode comprovar o que digo. Isso de alguma forma serve para desacreditar e negativar uma luta histórica como a Reforma Agrária.
No campo do trabalho mobilizações de categorias como bancários, professores, carteiros, entre outras, também sofrem com essa má vontade da imprensa. A partir dessa “desacreditação” surge o ambiente de intolerância. Recentemente ocorreu uma paralisação nas obras do estádio Maracanã para a Copa de 2014. Os operários cobravam melhores condições de trabalho e melhorias em alojamentos básicos como banheiros. Abordagem midiática fez um recorte não em cima da precariedade sofrida pelos operários, e sim no prejuízo que isso causaria a imagem do Brasil pelo atraso do cronograma de obras. Nesta questão, a relação capital/trabalho, como sempre, acabou por se tornar uma discussão secundária e sem relevância diante de um “problema maior”.
Sobre a mobilização dos estudantes da USP, o que se deve discutir não é a razão da confusão, que começou com a apreensão de três pessoas no campus, que portavam uma pequena quantidade de maconha. O recorte dado pela imprensa para o fato ocorrido foi de um reducionismo espantoso. O problema principal fica por conta do abuso da autoridade policial na prisão dos suspeitos e nos seus desdobramentos. É claro, que a operação de desocupação das dependências da reitoria foi uma ação desproporcional. A questão da USP não pode ser colocada apenas como um caso rotineiro de polícia. É essencial que o debate sobre descriminalização da maconha volte a ser pautado, isso sem moralismos e estereotipações. Não vejo ninguém condenar ou criticar o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, quando ele trata do assunto. E outra coisa, em nenhum lugar do mundo pode ser considerado normal qualquer tipo de procedimento policial que afronte o direito de livre expressão. Considero que o campus de qualquer universidade seja um espaço "sacrum", que não pode servir campo de treinamento tático militar.
Foto:gazetaonline.globo.com

2 comentários:
Adoro seu blog, textos muito interessantes!
Obrigado Carolina.
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